Por Aristarco Coelho
Vivemos tempos marcados pela pressa, pela indiferença e por palavras cada vez mais duras. Basta observar as ruas, as casas, os ambientes de trabalho e, sobretudo, as redes sociais. Há pouca paciência, muito julgamento e uma sensação crescente de que cuidar do outro dá trabalho demais. Nesse cenário, falar sobre amabilidade pode soar ingênuo — ou até perigoso. Afinal, ser gentil parece coisa de quem vai acabar sendo passado para trás.
Mas a Bíblia insiste em outro caminho. Para ela, a amabilidade não é fraqueza, nem acessório de gente educada. Amabilidade é fruto do Espírito Santo. É sinal de uma vida que está sendo moldada por Deus de dentro para fora.
Amabilidade, do jeito que o evangelho apresenta, não se resume a boas maneiras ou cordialidade social. Ela é a vida de Cristo se expressando em gestos reais de bondade, cuidado e graça. É a delicadeza que torna o amor visível, a ternura que dá forma à compaixão, a atitude que transforma relacionamentos. Não estamos falando apenas de comportamento externo, mas de uma transformação interior que inevitavelmente transborda para fora.
É por isso que podemos dizer que a amabilidade não é um detalhe da vida cristã. Ela é um jeito de viver.
O fruto do Espírito e o jeito de Deus
Ao escrever aos gálatas, o apóstolo Paulo faz um contraste forte entre dois caminhos possíveis. De um lado, ele descreve as chamadas “obras da carne”: atitudes que destroem relações e corroem a vida comunitária — imoralidade, divisões, inveja, explosões de ira, egoísmo. Mesmo sendo um texto antigo, a lista parece assustadoramente atual. É como olhar para um retrato da nossa própria cultura.
Do outro lado, Paulo apresenta o que acontece quando a vida é conduzida pelo Espírito de Deus:
“Mas o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Contra essas coisas não há lei.”
(Gálatas 5.22–23, NVI)
Note que Paulo não fala em “frutos”, no plural, mas em fruto. Trata-se de uma obra única do Espírito que se manifesta de várias formas. Entre elas está a amabilidade.
A palavra usada por Paulo no original grego é chrestótēs. Ela carrega a ideia de bondade ativa, gentileza no trato, disposição interior que se revela em atitudes que tornam a vida do outro mais leve. Não é apenas suavidade emocional, mas benevolência concreta.
Esse detalhe é importante porque a mesma palavra é usada para falar do próprio Deus. Em Romanos 2.4, Paulo diz que Deus é “rico em bondade (chrestótēs)”. Ou seja, quando o fruto do Espírito produz amabilidade em nós, o que aparece não é apenas um traço de personalidade, mas um reflexo do caráter de Deus.
Ser amável, nesse sentido, é permitir que o jeito de Deus se torne visível na nossa maneira de viver.
Deus tomou a iniciativa
Essa compreensão fica ainda mais profunda quando olhamos para as palavras do apóstolo João:
“Deus mostrou quanto nos amou ao enviar seu único Filho ao mundo, para que, por meio dele, tenhamos vida.
É nisto que consiste o amor: não em que tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou seu Filho como sacrifício pelo perdão de nossos pecados.
Amados, visto que Deus tanto nos amou, certamente devemos amar uns aos outros.”
(1 João 4.9–11, NVT)
Aqui encontramos a raiz mais profunda da amabilidade cristã: Deus se adiantou. Ele não esperou que pedíssemos ajuda. Não ficou aguardando arrependimento, melhora de comportamento ou merecimento. Ele tomou a iniciativa.
A amabilidade cristã nasce exatamente aí. Antes de ser um esforço humano para “tratar melhor as pessoas”, ela é resposta a um amor que chegou primeiro. O Espírito Santo trabalha em nós para reproduzir essa mesma disposição: amar antes, cuidar antes, agir antes.
Por isso, precisamos deixar algo muito claro: a amabilidade de que a Bíblia fala não nasce da boa educação, nem de um temperamento mais dócil. Ela é evidência espiritual. É sinal de que fomos tocados pelo amor de Deus e estamos sendo transformados por Ele.
O que, afinal, é amabilidade?
À luz das Escrituras, podemos compreender a amabilidade cristã a partir de três afirmações simples e profundas.
Amabilidade é o amor em ação.
Jesus não apenas falou sobre amor; Ele o viveu. Curou, acolheu, tocou os esquecidos, serviu os que ninguém queria servir e deu a vida até pelos inimigos. O amor verdadeiro sempre encontra um jeito de agir. Quando o amor deixa de ser apenas sentimento ou discurso e se transforma em gesto concreto, estamos diante da amabilidade.
Amabilidade é Deus agindo por meio de pessoas.
Deus cuida de gente através de gente. Muitas vezes, um gesto simples — uma palavra, uma visita, um cuidado inesperado — é resposta direta de oração. Mãos humanas se tornam instrumentos da providência divina. O extraordinário de Deus frequentemente se manifesta em atitudes que parecem pequenas demais para chamar atenção.
Amabilidade é a versão humana da graça de Deus.
A graça é Deus nos dando o que não merecemos. A amabilidade é quando, no nosso nível humano, oferecemos ao outro algo além do que seria exigido, justo ou esperado. É ir além do mínimo. É oferecer mais do que a obrigação pede, refletindo a generosidade da graça que nos alcançou.
Essas três dimensões formam uma definição sólida:
amabilidade é amor em prática, Deus em ação e graça traduzida em gestos humanos.
Quando a luz se torna visível
Jesus ensinou que a fé verdadeira não fica escondida:
“Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus.”
(Mateus 5.16, NVI)
A amabilidade faz exatamente isso. Ela não chama atenção para si mesma, mas aponta para Deus. Quando vidas comuns passam a agir de forma extraordinariamente bondosa, o mundo começa a perceber que algo diferente está acontecendo.
Ser amável não é apenas ser mais educado. É permitir que o Espírito Santo torne visível, no cotidiano, o caráter de um Deus que nos amou primeiro.
No próximo artigo, vamos olhar para uma expressão concreta dessa amabilidade: a solicitude — esse olhar atento que percebe antes do pedido e essa disposição interior que se transforma em ação.