Amabilidade vestida de mansidão

Por Aristarco Coelho

Como restaurar sem humilhar: o espírito da correção cristã

Este texto integra a série “Amabilidade — transformando o mundo pouco a pouco”, uma sequência de reflexões bíblicas sobre como o Espírito molda nossas relações no cotidiano — em casa, na igreja e na cidade.

No artigo anterior, vimos que a Bíblia rejeita dois extremos — omissão que abandona e dureza que humilha — e, em vez disso, nos chama para uma terceira via: restaurar, não expor.

Agora, Paulo nos entrega o “como” que impede a igreja de virar tribunal:

“…deverão restaurá-lo com mansidão.” (Gálatas 6.1, NVI)

A palavra “mansidão” soa bonito e, no entanto, costuma ser mal compreendida. Para muitos, mansidão parece timidez; para outros, permissividade. Porém, no evangelho, mansidão nem de longe pode ser confundida com algum tipo de fraqueza: ela é força sob controle. Em outras palavras, é poder que poderia esmagar, mas escolhe curar.

Não por acaso, Jesus colocou a mansidão no centro do Reino:

“Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.” (Mateus 5.5, NVI)

Na lógica do mundo, herda a terra quem se impõe. Já no Reino, herda a terra quem aprende a exercer força sem violência. Por isso, mansidão é crucial para a correção fraterna: corrigir sem ela é tratar um irmão como adversário; com mansidão, por outro lado, tratamos o irmão como alguém a quem queremos devolver o chão da vida.

Restaurar é mais “enfermaria” do que “tribunal”

Paulo usa “restaurar” porque a correção cristã é, de fato, terapêutica. O verbo que ele escolhe carrega a ideia de reajustar o que saiu do lugar, como quem, com mãos firmes e cuidadosas, recoloca um osso deslocado para que volte a cumprir sua função.

Por isso, restaurar aponta para cura, para retorno, para recomposição — não para exposição. Isso não significa minimizar o pecado; ao contrário, significa lidar com o pecado do jeito que Cristo lida com pecadores: com verdade e graça, ao mesmo tempo, buscando não apenas interromper o erro, mas devolver à pessoa o caminho e a integridade.

Além disso, três escolhas práticas dão forma concreta à mansidão.

Escolher o objetivo certo

A pergunta capaz de definir o real objetivo de conversas que visam corrigir é esta: eu quero restauração ou alívio da minha irritação? Esse discernimento é necessário, porque, às vezes, o que nos move — e chamamos de “zelo” — é apenas impaciência o erro do outro. No entanto, quando estou revestido de mansidão, recuso-me a falar para descarregar minha impaciência e, em vez disso, falo para edificar.

Escolher o tom certo

Em seguida, precisamos escolher o tom da nossa fala. Mansidão não é “fala mansa” apenas; é ausência de tons e desarmonias que comunicam desprezo. Assim, ela se expressa como firmeza sem sarcasmo e clareza sem humilhação. Um teste simples ajuda a avaliar o tom que estamos usando: como eu reagiria a esse tom se fosse comigo?

Escolher o contexto certo

Por fim, mansidão protege a dignidade. Por isso, a terceira escolha é entre publicidade e privacidade; a mansidão prefere a privacidade e também o momento propício. Ela considera com atenção o tempo e as condições emocionais da pessoa. Afinal, há coisas que, se forem ditas no calor, só produzem defesa; há palavras que precisam do ambiente certo para funcionar como remédio.

E quando eu percebo orgulho em mim?

Paulo antecipa esse risco:

“Cuide-se, porém, cada um para que também não seja tentado.” (Gálatas 6.1, NVI)

A tentação aqui não é só “cair no mesmo pecado”. Muitas vezes, ela aparece de modo mais sutil: superioridade espiritual. Ou seja, corrigir para se sentir melhor; usar a fragilidade do outro como palco para se afirmar.

Por isso, antes da conversa com o outro, deve vir o exame de si mesmo. Quando alguém tenta ajudar, mas não se examina com rigor, acaba achando-se superior e virando acusador. Entretanto, quem se examina e, percebendo os próprios pecados, aceita as vestes da humildade, torna-se companheiro de viagem rumo à graça de Deus.

Como ganhar essa sensibilidade? Aqui vai um checklist curto, mas poderoso:

  • Estou buscando restauração ou apenas “ficar em paz comigo”?
  • Se eu estiver errado em alguma parte, estou disposto a ouvir também?
  • Minha fala cria possibilidade de recomeço?

Próximo passo

No próximo artigo, vamos ao v.2: “Levem os fardos…”. Porque correção bíblica não termina na fala; ela continua na caminhada. Desse modo, nasce uma cultura comunitária rara: um lugar onde dá para recomeçar.

Pergunta para levar hoje:
O meu jeito de falar aproxima as pessoas de Cristo — ou só as empurra para mais defensiva?

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