Palavras Gentis: linguagem da família de Deus

Por Aristarco Coelho

Por que a Amabilidade é o Nosso Novo Sotaque

Série: Amabilidade — transformando o mundo pouco a pouco

No texto anterior, refletimos sobre como o evangelho desarma a alma tomada de medo, oferecendo-nos uma vida que já não precisa falar a partir da defesa, porque aprendeu a descansar em seu pertencimento.

Agora, Paulo nos ajuda a dar mais um passo: entender como essa nova segurança interior se relaciona com a maneira como falamos. Para tratar do assunto à luz do evangelho, ele não começa com regras, mas com identidade.

Isso é decisivo para não transformarmos a fé cristã em um simples manual de boas maneiras. Antes de dizer como devemos falar, o apóstolo faz questão de lembrar quem somos. É nesse contexto que, escrevendo aos efésios, ele afirma:

“Portanto, vocês já não são estrangeiros nem forasteiros, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus.” (Efésios 2:19)

O tom de quem tem casa

A forma como Paulo introduz o assunto muda tudo. Ele está dizendo: “Vocês são povo de Deus. Vocês têm casa e família”. E é exatamente a partir dessa certeza que ele nos convida a olhar para o tema da fala, apresentado mais à frente:

“Nenhuma palavra torpe saia da boca de vocês, mas apenas a que for útil para edificar os outros, conforme a necessidade, para que conceda graça aos que a ouvem.” (Efésios 4:29)

Então este versículo não é apenas uma lista de proibições. Paulo está descrevendo a linguagem de uma casa. Famílias verdadeiras se reconhecem pelo tom: pelo jeito de conversar quando há tensão, pela forma como lidam com conflitos e pela maneira como cuidam uns dos outros quando erram.

Dentro de casa, palavras criam clima. Elas podem tornar o ambiente seguro — ou sufocante. Podem acolher — ou afastar. Podem proteger — ou ferir. Por essa razão, Paulo vai além do ‘evitem palavras ruins’. Ele convoca os membros da família de Deus a usar palavras que edifiquem, que sejam ajustadas à necessidade do outro e que concedam graça a quem as ouve.

O perigo da “verdade” sem graça

É aqui que Paulo toca num ponto sensível. Ao falar em “palavra torpe”, ele não se refere apenas a vulgaridades, mas a tudo aquilo que apodrece e corrói o ambiente.. Torpes são as palavras que azedam uma boa conversa — mesmo quando vêm embrulhadas em “verdade”.

  • Há verdades ditas sem amor que estragam o clima da casa.
  • Há correções corretas no conteúdo, mas destrutivas no espírito.
  • Há falas que não são falsas — mas são duras demais para quem as recebe.

Não podemos esquecer que a verdade do evangelho nunca é separada da graça do evangelho. Na família de Deus, a fala não serve para marcar posição, mas para preservar e desenvolver relacionamentos. Não serve para vencer debates egoístas, mas para cuidar de pessoas.

Uma identidade que precede a fala

A verdade é que palavras gentis não nos tornam família de Deus; elas revelam que já somos.

Portanto, falamos de um jeito novo não para conquistar pertencimento, mas porque já pertencemos. Nossas palavras não são para ganhar um lugar, mas resultam do lugar que já temos. Quando o Espírito nos conduz, Ele forma uma comunidade reconhecível — uma família cuja linguagem reflete o cuidado do Pai no modo de falar, corrigir e acolher.

Para praticar nesta semana: Em uma conversa comum do seu dia, lembre-se conscientemente: você está falando como alguém que tem casa. Antes de responder, pergunte-se em silêncio: isso concede graça a quem vai ouvir? Se o tom falhar, volte e repare. Falar como família também é aprender a cuidar depois do erro.

No próximo artigo, vamos descer ainda mais ao chão da vida e olhar para essa transformação em movimento: como sair, pouco a pouco, da fala defensiva para uma fala marcada pela confiança.

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