Palavras Gentis: o estado da alma

Por Aristarco Coelho

Como o Espírito de Deus começa a transformar nossas relações pela maneira como falamos

Série: Amabilidade — transformando o mundo pouco a pouco

Há algo curioso — e preocupante — no jeito como temos conversado hoje. As palavras gentis, que deveriam dar forma ao cuidado e à escuta, vão cedendo espaço a conversas rápidas, tensas e defensivas. Fala-se muito, escuta-se pouco. Às vezes não é agressividade explícita. É aquele tom atravessado. A resposta pronta. A frase dita já com o corpo levemente inclinado para a defesa, como quem se prepara para um ataque que ainda nem aconteceu.

Por isso, são tempos em que palavras gentis têm-se tornado raras, e muita gente fala como quem precisa se proteger.

Protege-se da possibilidade de não ser ouvido,
do medo de perder espaço,
da chance de ser ferido outra vez —
protege-se, até mesmo, da suspeita de parecer fraco.

Quando o tom revela mais do que as palavras

Então, quando isso acontece muda nosso jeito de falar: a boca vira trincheira.

Falamos para não sair por baixo,
para manter o controle,
para marcar território —
e, assim, falamos muito e falamos rápido, porque o silêncio parece perigoso demais.

Essa fala armada assume muitas formas. Em alguns momentos aparece como palavras duras. Em outros, como ironias disfarçadas de humor. Há também o silêncio carregado, que não acolhe — pune. Respostas curtas, ferinas, ditas com precisão cirúrgica. Corrigimos os outros mais para nos proteger do que para ajudá-los. Dizemos verdades — mas como quem empunha uma arma para vencer o outro.

Por outro lado, e aqui está um ponto delicado: a verdade, quando usada para marcar posição, perde seu poder de curar. Ela até pode estar correta no conteúdo, mas errada no espírito. Em vez de restaurar, machuca. Em vez de aproximar, afasta. Como diz a Escritura, podemos “seguir a verdade”, mas se não for “em amor”, não crescemos (Efésios 4:15).

Isso acontece em casa.
Acontece no trabalho.
Acontece nos grupos de mensagens.
Infelizmente, acontece também dentro da igreja.

Ambientes que deveriam ser seguros vão ficando cansativos. As pessoas começam a medir palavras, a “pisar em ovos”, a se calar não por sabedoria, mas por exaustão. Aos poucos, a vida comunitária perde leveza. As relações endurecem. A alegria dá lugar à cautela.

O que nos arma por dentro

De forma reveladora, a Escritura chama esse modo de viver de “velho homem” — não no sentido de idade, mas de um jeito antigo e desgastado de existir: a convicção profunda de que precisamos estar sempre na defensiva. Quando vivemos assim, a preocupação facilmente soa como cobrança; o cuidado, como controle; e até o conselho, em vez de curar, machuca. É o oposto do conselho de Provérbios: “A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira” (Provérbios 15:1).

O problema é que, tentando não ser ferida, a alma armada pelo medo não percebe o estrago que está causando.

E o preço disso é alto. Relações se desgastam. Ambientes se tornam emocionalmente pesados. Conversas deixam de ser espaço de encontro e passam a ser campos minados. Aos poucos, a vida vai perdendo suavidade.

É exatamente aqui que entra a boa notícia.

O agir do Espírito Santo

O Espírito Santo não atua apenas na superfície da nossa fala. Ele vai mais fundo. Ele não começa corrigindo frases — começa desarmando o coração que está por trás delas.

Temos refletido nesta série sobre um modo de vida: a vida de quem é conduzido pelo Espírito e aprende a viver como membro da família de Deus. Na primeira mensagem, falamos da amabilidade vestida de solicitude — o amor que toma a iniciativa, que percebe antes de ser chamado, que se move em direção ao outro.

Agora damos mais um passo.

Esse mesmo Espírito que nos move em direção ao próximo também deseja desarmar a nossa fala.

Porque o tom com que falamos não é um detalhe secundário. Ele revela o que está acontecendo por dentro. Revela se estamos vivendo na confiança ou na ameaça. Na segurança ou no medo. Na pertença ou na disputa.

Quando o Espírito nos conduz, Ele nos desarma por dentro — e isso começa a aparecer no modo como falamos.

Para praticar nesta semana: Que tal fazer uma pequena experiência? Escolha uma conversa do dia a dia e, antes de responder, faça uma pausa consciente. Nessa pausa, pergunte-se internamente: "Minhas próximas palavras estão saindo de uma trincheira ou de um lugar seguro no Espírito?" Às vezes, a simples consciência já é o primeiro passo para a mudança.

No próximo artigo, vamos olhar para como o evangelho forma uma vida interior segura o suficiente para falar sem ferir — uma alma desarmada que aprende a usar palavras não para se defender, mas para cuidar.

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