Por Aristarco Coelho
Falar sobre solicitude é inspirador, mas o teste real acontece quando ela sai do papel e ganha forma na rotina. É ali, nos lugares comuns, que a amabilidade se veste de gestos simples e mostra se a graça está mesmo em movimento. A solicitude cristã não aparece só em grandes decisões; ela brilha nas pequenas iniciativas que tornam a vida do outro mais leve.
No lar
A família é o nosso primeiro — e talvez o mais exigente — laboratório. É em casa que aprendemos a perceber as coisas antes do pedido. Muitas vezes, esperamos o outro reclamar para só então reagir, mas a solicitude nos convida a antecipar.
Talvez seu cônjuge não diga nada, mas o olhar entregue o cansaço. Pode ser que seu filho não saiba pedir, mas precise mais de atenção do que de presentes. Ou quem sabe seus pais não expressem carência, mas um telefonema surpresa seja o bálsamo que eles precisavam. Ser solícito é aquele gesto de quem nota o peso emocional do outro e diz: “Pode deixar que eu cuido disso hoje. Descansa.”
Na igreja
A comunidade cristã deveria ser o lugar onde a solicitude mais cresce. Paulo nos orienta: “Levem os fardos pesados uns dos outros” (Gl 6.2). Quem é solícito na igreja percebe o silêncio, nota a ausência e entende um semblante abatido. Em vez de apenas sentir pena, essa pessoa toma a iniciativa.
Barnabé, o “filho da consolação”, é um ótimo exemplo. Ele foi solícito com Paulo quando ninguém confiava na sua conversão (At 9.26–27) e, mais tarde, estendeu a mão para João Marcos, mesmo quando Paulo tinha desistido dele (At 15.37–39). Essa prontidão abriu caminhos para que ministérios inteiros florescessem.
No trabalho
O mundo profissional foca muito em resultados, mas raramente incentiva o cuidado. A lógica da competição nos ensina a olhar só para o próprio umbigo, mas o evangelho nos chama para ir além.
A solicitude aparece quando você percebe um colega sobrecarregado e oferece ajuda sem que ele precise pedir. Ela surge ao antecipar uma necessidade da equipe ou em pequenos gestos que mudam o clima de todo o escritório. Isso não é fraqueza; é humanidade guiada pelo Espírito.
Nos cuidados com a vida
Poucos lugares tornam a solicitude tão visível quanto um hospital. Ali, as pessoas chegam fragilizadas e nem sempre conseguem explicar o que precisam. Nesse contexto, a diferença entre um atendimento técnico e um atendimento humano está na capacidade de enxergar antes do pedido.
Profissionais que percebem o medo no olhar do paciente, que explicam um procedimento com calma ou que se antecipam à dor comunicam dignidade. Muitos pacientes contam que o que mais marcou a recuperação não foi apenas o remédio, mas o fato de terem sido tratados como pessoas. Deus continua cuidando de gente através de gente.
Na sociedade e no mundo digital
Em uma cultura de pressa e conflito, ser solícito é quase um ato de rebeldia. Isso se revela em gestos simples: segurar a porta, ceder o espaço ou oferecer atenção real. Na internet, o cuidado assume formas ainda mais delicadas, como perceber a dor por trás de um post ou escolher uma palavra de paz em vez de uma resposta agressiva.
Madre Teresa dizia que não fazemos grandes coisas, apenas pequenas coisas com grande amor. Quando o Espírito nos guia, essas ações viram sinais da bondade de Deus.
Um desafio simples — e profundo
Nada disso funcionaria se fosse apenas um esforço humano. A solicitude cristã nasce da nossa conexão com Deus. Cristo é a videira e nós somos os ramos; o fruto só aparece quando permanecemos Nele.
Por isso, o convite é: não espere ser chamado. Peça a Deus olhos atentos para ver antes e mãos prontas para agir primeiro. Nos próximos dias, tente fazer esta pergunta em suas conversas:
“O que a graça de Deus faria por esta pessoa, através de mim, agora?”
Aja conforme a resposta que vier ao coração.
Amabilidade vestida de solicitude é a graça de Deus tomando a iniciativa através da gente.