Por Aristarco Coelho
Entre tantas maneiras de falar sobre amabilidade, a solicitude talvez seja uma das mais esquecidas — e, curiosamente, uma das mais necessárias. Para muita gente, ser solícito significa apenas estar disponível, ajudar quando alguém pede ou responder quando é chamado. Mas a solicitude, à luz do evangelho, começa antes do pedido, antes da reclamação e antes mesmo de a necessidade ser colocada em palavras.
Ser solícito é viver com o “radar da alma” ligado. É perceber o que acontece ao redor e deixar o amor se mover em direção ao outro não por obrigação, mas por compaixão. É uma atenção ativa e sensível, que não fica esperando autorização para cuidar.
No entanto, existe um risco silencioso: toda solicitude que não vira ação corre o perigo de ser apenas uma boa intenção. Quantas vezes pensamos “isso me tocou”, “alguém deveria fazer algo” ou “eu poderia ajudar” — e, ainda assim, continuamos parados? Boas intenções, sozinhas, não aliviam fardos. A solicitude verdadeira sempre pede passagem para a prática.
É por isso que ela caminha de mãos dadas com outra virtude indispensável: a proatividade.
Solicitude e proatividade: duas faces do mesmo movimento
- Se a solicitude percebe, a proatividade age.
- Se a solicitude sente, a proatividade se move.
- Se a solicitude se compadece, a proatividade estende a mão.
Quando essas duas caminham juntas, encontramos uma expressão madura da amabilidade cristã. Não é só um sentimento interior, mas uma disposição que vira gesto concreto. A solicitude nos livra da indiferença; a proatividade nos conduz ao serviço.
Ao perceber alguém carregando um fardo pesado, não basta sentir pena — você precisa ajudar a segurar a carga. Se notar um irmão abatido, oferecer presença, palavra e oração é muito mais eficaz do que apenas lamentar em silêncio. Diante de uma injustiça, o simples entristecimento não resolve; o momento exige ação, mesmo que por meio de pequenos passos
Esse movimento revela algo importante: a solicitude não é passiva nem reativa. Ela não vive apenas de respostas, mas de iniciativa. É a amabilidade pronta para o que der e vier, que enxerga antes e age primeiro.
O que a solicitude cristã não é
Aqui vale um esclarecimento essencial: muitas vezes, a solicitude é confundida com um traço de personalidade. Alguns pensam que ela pertence apenas aos mais sensíveis, aos que já nasceram “prestativos”. Outros a associam à boa educação ou a um perfil mais empático.
Na perspectiva bíblica, porém, a solicitude não é temperamento — é fruto do Espírito. Ela não nasce do nosso perfil psicológico, mas da transformação de Deus em nós. Isso significa que não depende de inclinações naturais, mas de uma vida moldada pelo Senhor.
Por isso, a solicitude pode — e deve — ser aprendida e cultivada por qualquer pessoa que permanece em Cristo. Ela não é um dom reservado a alguns; é uma evidência do Espírito em todos os que caminham com Ele. Essa compreensão nos livra tanto do orgulho quanto da desculpa: ninguém é solícito por mérito próprio, e ninguém está dispensado de crescer nessa direção.
A lógica da antecipação: amar porque fomos amados primeiro
A base mais profunda da solicitude cristã está na maneira como Deus nos ama. O apóstolo João resume isso de forma simples e poderosa: “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19).
Deus não esperou que estivéssemos prontos ou arrependidos. Ele tomou a iniciativa. A graça chegou antes do pedido. A reconciliação foi oferecida antes da confissão. A vida foi dada antes da resposta.
A solicitude cristã é o reflexo disso. Quando nos antecipamos no cuidado e agimos sem esperar que nos peçam, estamos apenas reproduzindo o movimento da graça divina. Não se trata de heroísmo, mas de coerência: quem foi alcançado por uma graça que chegou primeiro aprende, pouco a pouco, a amar do mesmo jeito.
Cristo, o modelo perfeito
Se quisermos ver a solicitude em sua forma mais pura, precisamos olhar para Jesus. Nele não há separação entre sentir e agir. O evangelho diz que Ele “viu a multidão e teve compaixão dela” (Mt 9.36). Mas essa compaixão não parou na emoção; ela virou cuidado, ensino, cura e acolhimento.
Jesus não esperava que as pessoas formulassem pedidos perfeitos. Ele percebia, se aproximava e agia. Sua solicitude era ativa, concreta e real. Amor que se move.
É nesse espelho que devemos nos olhar. O mundo não precisa apenas de cristãos sensíveis, mas de cristãos que unam coração atento e mãos disponíveis. A solicitude não é um “enfeite” da fé, mas uma de suas expressões mais visíveis.
Antes de perguntarmos onde viver essa solicitude, precisamos entender quem estamos nos tornando. A prática só é saudável quando nasce de uma identidade transformada. É isso que nos prepara para o próximo passo: olhar para os lugares do dia a dia onde esse cuidado precisa ganhar corpo e constância.
Solicitude cristã é perceber antes e agir primeiro, movido pelo amor que chegou antes.