Unidade da igreja: a ameaça interna

Por Aristarco Coelho

A Ameaça Interna que Sabota a Unidade da Igreja

A unidade da igreja costuma ser ameaçada, na nossa imaginação, por fatores externos: pressões culturais, tempos difíceis, oposição aberta e falta de recursos. Tudo isso existe mesmo. Mas Paulo faz um movimento que nos pega de surpresa. Ele não começa falando do barulho de fora; chama atenção para o ruído de dentro.

Porque há ameaças que não chegam arrombando a porta. Elas entram devagar, como hábito, como tom de conversa, como postura repetida. Vão se instalando sem alarde e, quando percebemos, a unidade da igreja já está fragilizada, a comunhão começa a ficar pesada, difícil de sustentar.

Depois de lembrar a igreja do que ela já recebeu “por estar em Cristo” (Fp 2.1–2), Paulo age como um pastor cuidadoso. Ele não deixa a comunidade apenas tocada pela emoção; ele conduz à verdade. E a verdade, aqui, é bem direta.

“Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros.”
(Filipenses 2:3–4, NVI)

Quando o ego ameaça a unidade da igreja

O ego quase nunca aparece de forma escancarada. Ninguém costuma dizer: “Eu quero ser o centro.” O ego é mais sutil. Ele aprende a falar a língua da fé. Sabe se vestir de zelo, convicção, responsabilidade, até de “defesa da verdade”.

E, sim, pode existir zelo verdadeiro e convicção sincera. Mas Paulo nos alerta para algo desconfortável: também é possível defender uma causa correta com um coração que tem outra agenda — reconhecimento, controle, validação, superioridade ou medo de perder espaço.

Este texto funciona como um espelho. Ele muda um pouco a pergunta que costumamos fazer. A questão não é só se a nossa opinião está certa, mas se a nossa motivação está sendo tratada por Cristo.

Às vezes o assunto é pequeno, quase banal. Mesmo assim, ele gera tensões grandes. Isso ajuda a explicar por que muitos conflitos na igreja nascem de coisas que parecem simples, mas acabam ferindo profundamente a comunhão. O problema real nem sempre está no tema da conversa, mas no que acontece dentro de nós enquanto conversamos.

Ambição e vaidade: o combustível oculto dos conflitos na igreja

Paulo chama o problema pelo nome. Ambição egoísta não é desejo de fazer o bem. É transformar a vida comunitária numa arena. Aos poucos, a pergunta muda por dentro: deixa de ser “o que edifica?” e passa a ser “quem vence?”.

Em vez de “como servimos juntos?”, o coração entra em modo de competição:
“minha ideia precisa prevalecer”,
“meu método é mais maduro”,
“minha leitura precisa ser reconhecida”.

A vaidade é o outro lado da mesma moeda. Se a ambição quer vencer, a vaidade quer aparecer. Ela não precisa de confronto direto para corroer a unidade da igreja. Basta um ambiente onde as pessoas começam a medir, em silêncio, quem foi notado, quem recebeu crédito, quem foi lembrado.

Isso é especialmente perigoso na igreja porque pode se misturar com serviço sincero. A pessoa serve de verdade, mas começa a depender emocionalmente do reconhecimento. Quando ele não vem, algo azeda por dentro. Sem perceber, a comunhão vira palco — e palco não foi feito para família; foi feito para performance.

Humildade cristã e unidade da igreja

É aqui que Paulo apresenta o antídoto: humildade cristã. E ele não está falando de se diminuir por hábito religioso, nem de fingir que não tem valor. Humildade, aqui, é descentralizar. É tirar o “eu” do centro.

É parar de tratar o outro como obstáculo e voltar a enxergá-lo como alguém real: amado por Deus, alcançado pela mesma graça, habitado pelo mesmo Espírito.

“Considerar os outros superiores” não significa achar que o outro é sempre mais capaz. Significa tratá-lo com a mesma seriedade com que eu trato a mim mesmo. É devolver dignidade ao irmão quando o ego queria reduzi-lo a um problema a ser vencido.

Paulo deixa isso bem prático: “cada um cuide… também dos interesses dos outros”. Ele não diz que meus interesses não importam, mas que eles não podem ser o único centro. A maturidade espiritual aparece quando meu campo de preocupação se amplia — quando começo a considerar o impacto do meu tom, das minhas palavras, da minha insistência e das minhas preferências sobre o corpo todo.

O teste prático da comunhão cristã: vencer ou edificar?

Este texto não é uma acusação; é um convite à cura. Para trazer isso para o dia a dia, vale se perguntar:

  • Quando a conversa esquenta, o que surge primeiro em você: vontade de compreender ou vontade de vencer?
  • Quando você serve e ninguém percebe, o que acontece dentro de você?
  • Em que áreas é mais difícil ceder — não porque a verdade está em jogo, mas porque o ego quer manter o controle?

Para praticar Filipenses 2.3–4 sem transformar isso numa lista pesada de tarefas espirituais, experimente algo simples: em uma conversa onde você normalmente entraria para afirmar, entre para perguntar.

Uma frase como “me ajuda a entender por que isso é importante pra você?” pode mudar completamente o clima. Não porque a discordância desaparece, mas porque a pessoa volta a existir — e quando a pessoa volta a existir, a comunhão tem chance.

O verdadeiro remédio para o ego

A unidade na igreja não se preserva apenas com regras bem escritas. Ela se fortalece quando o ego perde espaço e Cristo ocupa o centro. Paulo nos lembra que a ameaça mais perigosa nem sempre é externa; muitas vezes, ela nasce dentro de nós.

Isso assusta — mas também traz esperança. Porque, se o problema está dentro, o Espírito também está. E ele sabe formar em nós um coração livre: que não precisa vencer para existir, nem aparecer para valer, nem controlar para respirar. Um coração capaz de amar.

Oração

Senhor, livra-me de servir a igreja enquanto alimento o meu ego. Revela em mim a ambição que quer vencer e a vaidade que quer ser vista. Ensina-me a humildade que descentraliza o eu e devolve dignidade ao meu irmão. Dá-me um coração que cuide dos interesses dos outros como família alcançada pela graça. Em nome de Jesus. Amém.

Próximo passo: da consciência à cura real

Se o ego é um inimigo silencioso — e se ele até usa linguagem piedosa — precisamos admitir algo: não basta decidir “vou ser mais humilde”. A cura não vem do ego aprendendo novas técnicas, mas de um novo centro sendo formado dentro de nós.

Por isso Paulo nos conduz ao coração do remédio:
“Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus.”
A unidade não se sustenta só por contenção; ela nasce quando aprendemos a viver com a mente de Cristo.

Este é o terceiro artigo da série “Unidade em Risco”. Leia também: Unidade em Risco: o perigo invisível e Unidade em Risco: lembrando a graça. No próximo texto, vamos refletir sobre como cultivar, na prática, a mente de Cristo no cotidiano da igreja.

Para reflexão: que situação hoje, na sua comunidade, mais desafia a sua humildade? Como você tem buscado descentralizar o “eu” para preservar a unidade?

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