Por Aristarco Coelho
Este o segundo artigo que integra a série “Unidade em Risco”, escrita a partir da mensagem pregada no 26º aniversário da Igreja Batista Nova Esperança (Santa Rita/PB), refletindo Filipenses 2 e o caminho do evangelho para uma unidade real.
A maioria de nós sabe como é difícil “manter a unidade”. Quando a igreja está em paz, ela parece natural; mas quando surgem tensões, vira um trabalho pesado. Diante dessa dificuldade comum à vida comunitária, é significativo observar que vários caminhos se apresentam como soluções rápidas: tentar resolver pela pressão; cobrar mais maturidade; exigir mais “amor” ou apertar as pessoas com culpa espiritual. Só que Paulo faz o oposto. Ele não começa pela bronca, mas pela memória de fé dos irmãos filipenses.
Antes de mexer nas causas do conflito, o apóstolo rega o chão da comunhão. Antes de diagnosticar a doença, ele lembra a igreja do antídoto. Como quem diz: “Vocês não vão aprender a viver como família se esquecerem como se tornaram família.”
O Caminho de Paulo para a Unidade Cristã
É neste contexto que encontramos as palavras orientadoras do apóstolo:
“Se por estarmos em Cristo temos alguma motivação, alguma exortação de amor, alguma comunhão no Espírito, alguma profunda afeição e compaixão, completem a minha alegria, tendo o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude.” (Filipenses 2:1–2, NVI)
Não Culpa, mas Lembrança
Repare como Paulo abre o texto com quatro “se”. À primeira vista, poderia parecer que ele está duvidando: “Será que vocês têm isso?” Mas, pelo tom e pelo contexto, é o contrário. São “se” de certeza, não de incerteza. É como se ele dissesse: “Já que vocês têm isso… então vivam como quem tem.”
Como isso é precioso! Paulo sabe que o ego não é curado com culpas e acusações, mas sim com as lembranças da Graça recebida. Porque a lembrança de porquê e como fomos salvos faz duas coisas ao mesmo tempo: humilha (no bom sentido) e renova. Ela derruba nosso orgulho sem nos esmagar, e nos reergue sem nos inflar.
As 4 Realidades da Graça que Sustentam a Comunhão na Igreja
Paulo aponta para quatro experiências que todo cristão já recebeu “por estar em Cristo”. Elas não são medalhas para quem se esforçou mais. São presentes do evangelho. E é sobre esse chão — não sobre afinidades, gostos ou conveniências — que a unidade na igreja cresce. Cada uma dessas realidades forma um pilar essencial para a vida comunitária saudável. Vamos explorá-las individualmente:
1. Motivação em Cristo: O Novo Centro da Vida Comum
“Motivação” aqui não é empolgação emocional passageira. Pelo contrário, é aquela força constante e perseverante que toma conta da gente quando Cristo passa a ser o centro. Antes, a gente vivia buscando aprovação, tentando se proteger, disputando espaço, provando valor. Em Cristo, há outra força atuando: a graça realinhando desejos, curando inseguranças, deslocando o “eu” do trono.
A unidade na igreja começa quando o coração para de perguntar “como eu fico?” e passa a perguntar “como Cristo é honrado?”
2. Consolação de Amor: O Encorajamento que Sustenta a Comunhão
Paulo fala de “exortação” ou “consolo” de amor: aquele encorajamento que vem ao lado e sustenta. O evangelho não nos alcançou com uma lista de exigências; nos alcançou com amor que se aproxima. Amor que não recua diante do que somos. Amor que insiste.
Quando lembramos disso, fica mais difícil tratar o irmão com frieza. Não porque viramos “bons”, mas porque somos reconduzidos à fonte: fomos tratados com misericórdia. Como então a comunhão cristã pode virar lugar de dureza?
3. Comunhão no Espírito: O Vínculo que Faz da Igreja Família
Igreja não é um grupo de pessoas parecidas frequentando o mesmo lugar. Pelo contrário, é gente diferente, mas unida por uma mesma vida. O Espírito Santo não é o “clima” impessoal do culto; é o vínculo pessoal e invisível que nos fez família (saiba mais sobre a [ação do Espírito Santo na unidade da igreja]).
Isso muda o modo como enxergamos o outro. A comunhão deixa de ser algo que inventamos e passa a ser algo que recebemos. Se nos esquecermos disso, a igreja vira associação, mas quando lembramos, ela volta a ser corpo.
4. Afeição e Compaixão: O Coração Formado pelo Evangelho
O evangelho não forma apenas convicções corretas; ele forma um tipo de coração. Paulo fala de afeição profunda e compaixão — uma sensibilidade que aprende a sentir com o outro. Isso é mais do que simpatia. É aquela disposição de levar a sério a dor do irmão, sua história, seus limites, suas pressões.
Unidade, então, não é só “concordar”. É cuidar. É sustentar o vínculo mesmo quando discordamos, porque a pessoa vale mais do que o ponto em discussão.
O perigo de construir unidade na igreja sobre alicerces frágeis
Toda igreja tem afinidades naturais: estilo de culto, faixa etária, hábitos culturais, preferências. Essas coisas podem ser bênçãos. Mas não podem ser o alicerce. Porque afinidades são pontes frágeis: funcionam bem até chegar a tempestade.
Quando a igreja se une principalmente por gostos comuns, ela se divide quando os gostos mudam. Se a unidade é por conveniência, ela se quebra quando o custo de permanecer juntos se torna mais alto. Se a unidade se restringe ao “meu grupo”, ela vira um conjunto de territórios e não uma família.
Paulo está oferecendo um fundamento melhor: algo que já recebemos em Cristo. Esse chão não treme. Ele sustenta gerações. Ele aguenta tensões reais, porque é maior do que nossas preferências.
“Completem minha alegria”: unidade como maturidade cristã
Depois de firmar esse alicerce, Paulo faz seu pedido: “completem a minha alegria”. O tom não é de ameaça, pelo contrário, é claramente uma fala de afeto. Ele está dizendo: “Vocês já caminharam muito. Agora deem mais um passo: vivam de modo coerente com a graça que receberam.”
E ele descreve esse passo com quatro expressões que, embora não exijam uniformidade, precisam de uma direção comum:
- O mesmo modo de pensar: não unanimidade, mas centro compartilhado;
- O mesmo amor: não seletivo, mas abrangente;
- Um só espírito: sem “pequenos reinos” e panelas;
- Uma só atitude: postura visível no cotidiano, especialmente quando é difícil.
A igreja não precisa tentar ser um lugar onde ninguém discorda, mas deve ser um lugar onde discordâncias não destroem a comunhão — porque a comunhão está enraizada em algo maior.
Avaliando os alicerces da nossa unidade na Igreja
Uma pergunta simples para ajudar a revelar nosso real alicerce: Quando você pensa na sua igreja local, o que mais te prende a ela?
Pode ser a convivência com gente parecida com você, um ambiente confortável, um estilo que você gosta ou um projeto que te anima. Tudo isso é legítimo e pode ser bom. Mas quando o atrito alcança os relacionamentos, essas coisas não seguram o peso.
A pergunta que devemos ter coragem de fazer é: o que mais me une aos meus irmãos? Afinidade… ou evangelho? Preferência… ou Cristo? Conveniência… ou Espírito?
Quando a igreja volta para esse chão, ela parece respirar novamente. Não porque desaparecem as tensões, mas porque a vida comum deixa de ser uma disputa por espaço e volta a ser uma resposta compartilhada à graça.
Exercitando a memória da graça na vida comunitária
Para levar essa verdade da teoria à prática, propomos um exercício simples de “memória ativa” em dois passos:
- Escreva (ou diga em oração) em uma frase: “Eu fui alcançado por Cristo quando…”
- Escolha uma pessoa da igreja com quem você tem mais dificuldade e ore assim: “Senhor, lembra-me que nós dois estamos aqui pelo mesmo amor. Ajuda-me a tratar essa pessoa como família.”
A unidade na igreja começa quando a memória da graça muda a forma como olhamos uns para os outros.
Oração:
Senhor, eu confesso que, muitas vezes, faço da minha preferência um centro e da minha opinião um território. Faz-me voltar ao chão da graça. Reaviva em mim a memória do teu amor, da comunhão do Espírito e da compaixão que nos une. Dá-nos um só coração em torno de Cristo. Que a nossa unidade seja mais do que convivência: seja testemunho. Amém.
Quando a Comunhão na Igreja se Desgasta por Causas Internas
Se a unidade começa na memória — no chão firme do que já recebemos por estarmos em Cristo — então por que ela se quebra com tanta facilidade? Por que comunidades que conhecem a graça, confessam a mesma fé e partilham a mesma mesa ainda se ferem, se endurecem e se dividem por coisas pequenas?
Paulo agora dá o passo que a maioria de nós evita: ele sai do terreno consolador das lembranças e entra no diagnóstico do coração. Porque a comunhão não desmorona apenas por pressões externas; ela se desgasta quando algo dentro de nós assume o comando. E esse inimigo não costuma chegar com barulho. Ele veste linguagem piedosa, usa argumentos “corretos” e, sem que percebamos, coloca o “eu” de volta no centro. É por isso que, no próximo capítulo, Paulo chama a doença pelo nome: ambição egoísta e vaidade — o ego usando roupas espirituais.
Este artigo faz parte da série “Unidade em Risco”. Leia o primeiro artigo: [Unidade em Risco: o perigo invisível] e fique atento para o próximo: “Unidade em Risco: quando o ego veste roupas espirituais”.
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