Unidade em Risco: perigo invisível

Por Aristarco Coelho

Quando a ameaça vem de dentro

Este é o primeiro artigo da série “Unidade em Risco”, escrita a partir da mensagem pregada no 26º aniversário da Igreja Batista Nova Esperança (Santa Rita/PB), à luz de Filipenses 2 e do caminho do evangelho para uma unidade real.

Em geral, as pessoas imaginam que as maiores ameaças a uma igreja vêm de fora: pressões culturais, críticas sobre modos e costumes, falta de recursos, hostilidade aberta. Tudo isso, de fato, pode ferir a comunidade — e não deve ser desprezado. Mas Filipenses nos coloca diante de um alerta desconcertante: na maior parte das vezes, o que mais enfraquece uma igreja não chega de fora fazendo barulho. Cresce por dentro.

O fato é que o que ameaça uma igreja nem sempre é a perseguição; às vezes é o clima dos relacionamentos. É o jeito pouco gentil de conversar. É a convivência marcada por um padrão de defesa e ataque, onde cada frase já vem armada. O cansaço de lidar intensamente com pessoas produz um acúmulo de mágoas que, mesmo sem virar briga aberta, com frequência se transforma em distância. E, quando a distância se instala, até o culto pode ficar “certo” por fora — e pobre por dentro.

Um problema que começa em lugares comuns

Imagine uma sala de reunião num dia comum. Café, cadeiras, pautas, horários, orçamento. Todo mundo ali ama Jesus, serve na igreja, conhece a Bíblia. O tema parece simples: melhorar a escola bíblica, organizar um ministério, decidir uma compra. Só que, em algum ponto do caminho, acontece algo quase imperceptível: a conversa deixa de buscar o bem do corpo de Cristo e passa a girar em torno de quem tem razão.

Ninguém anuncia essa virada. Ela só acontece.

Então o tom endurece, o ouvido se fecha, e a leitura do outro vira suspeita. E, quando tudo termina — talvez até com uma decisão tomada — fica no ar um certo resíduo de desarmonia. É esse resíduo, repetido ao longo do tempo, que vai corroendo a alegria de caminhar junto.

Cenas assim nos lembram de algo importante: a Bíblia reconhece as lutas externas, mas é franca sobre um perigo ainda mais próximo — o momento em que o “eu” ocupa o centro e a comunhão começa a sofrer. A própria história da igreja mostra que é possível atravessar desertos e provações que vêm de fora e, ainda assim, permanecer unida; mas também revela como a fragmentação pode nascer por dentro, mesmo quando a aparência de normalidade se mantém.

O Eixo de Paulo para a Unidade na Igreja: O Senhorio Visível de Jesus

O eixo de Paulo para a unidade: o senhorio visível de Jesus

Paulo escreve aos filipenses com afeto. Ele ama aquela igreja. A carta é cheia de gratidão. E, justamente por isso, chama atenção o que ele escolhe enfatizar quando fala de maturidade: unidade — não como aparência, mas como realidade visível no modo como irmãos e irmãs convivem, discordam, servem e se reconciliam.

No centro do argumento, Paulo coloca uma frase que vira eixo espiritual e prático:

“Seja a atitude de vocês a mesma de Cristo Jesus.” (Filipenses 2:5, NVI)

Isso não é um detalhe devocional para “enfeitar” a carta. É direção. É como se Paulo dissesse: vocês querem saber o que sustenta uma igreja ao longo do tempo? Não é apenas estrutura, eficiência ou prestígio. É quem governa o coração quando a vida em comum é pressionada.

E aí surge uma pergunta incômoda — e, se acolhida com sinceridade, libertadora: quando nasce a tensão, o que aparece primeiro em nós? A vontade de edificar… ou a necessidade de vencer?

Ameaças internas: quando o “eu” ocupa o centro

As ameaças que chegam de fora costumam nos empurrar para a oração. Elas nos unem na dor, nos fazem depender de Deus, nos lembram do essencial. Mas há outras ameaças que não despertam a mesma urgência — porque parecem pequenas demais: comentários atravessados, disputas por método, comparações, conversas que vão ficando defensivas, críticas repetidas sem cuidado, decisões tomadas com o coração armado.

Essas coisas não parecem “grandes” o suficiente para alarmar. Só que elas mexem com o que sustenta o cotidiano: confiança, afeto, disposição de ouvir, prontidão para perdoar. E quando essas bases enfraquecem, a comunidade pode até continuar funcionando — mas vai perdendo o calor de família.

É por isso que Paulo, ao falar sobre unidade, não começa perguntando sobre números, agenda ou força institucional. Ele vai direto ao centro: “Completem a minha alegria” (Filipenses 2.2, NVI), vivendo a vida comum com um só espírito e a mesma disposição interior.

Em outras palavras: não permitam que o ego governe o ambiente.

Como Preservar a Unidade na Igreja com uma Mente Compartilhada

Paulo não está pedindo uniformidade. Ele não quer uma fábrica de clones espirituais. A igreja é feita de pessoas diferentes — e essa diversidade é parte do desenho de Deus. O problema não é a diferença. O problema é quando a diferença vira ameaça porque o “eu” instalou-se no trono.

Por isso, quando Paulo fala em “modo de pensar” e “uma só atitude”, ele está apontando para algo mais profundo do que concordância de opiniões. Ele está falando de um centro de gravidade comum. Uma referência que organiza tudo: Cristo.

Quando Cristo está no centro, diferenças viram contribuição, não disputa. Quando o ego está no centro, até semelhanças viram competição.

E aqui há uma chave pastoral importante: a unidade não é preservada primariamente por técnicas de convivência, embora elas ajudem. A unidade é preservada por corações sendo formados — treinados — para reagir de modo diferente: menos defensivo, menos ansioso por controle, menos dependente de validação e mais pronto a ouvir e servir.

Isso muda a igreja por dentro. Muda o tom das conversas, a forma de discordar, o jeito de tomar decisões, a cultura que se cria nos corredores, nos encontros e reuniões — onde a vida comunitária de fato acontece.

Identificando ameaças que crescem por dentro

Uma forma simples de discernir se algo está corroendo a comunhão não é perguntar “isso é grave?” — mas perguntar: isso está nos tornando mais parecidos com Cristo?

  • Quando discordamos, o outro sai mais compreendido ou mais rotulado?
  • Quando alguém erra, a correção vem com mansidão ou com prazer em “provar um ponto”?
  • Quando alguém é elogiado, o coração se alegra ou se fecha?
  • Quando uma decisão não atende minha preferência, eu consigo permanecer inteiro — ou preciso me defender?

Essas perguntas não são para acusar “os outros”. São para Deus nos devolver ao centro. Porque uma igreja pode ter bons programas e mesmo assim perder algo precioso: a alegria de ser povo.

Desafio semanal: cultivando a mente de Cristo

Escolha uma situação concreta em que você costuma reagir de modo defensivo (uma conversa, uma reunião, um tipo de pessoa, um assunto recorrente). E faça dois movimentos simples:

  1. Antes de responder, ore em silêncio: “Jesus, forma em mim tua mente agora.”
  2. Faça uma pergunta antes de afirmar sua opinião: “Me ajuda a entender por que isso é importante para você?”

Esse pequeno passo não resolve tudo sozinho, mas muda o clima. E, com o tempo, climas mudam culturas.

Oração: pelo cultivo de uma unidade real
Senhor Jesus, muitas vezes eu vigio palavras, mas o meu coração continua armado. Perdoa-me quando o meu ego ocupa o centro e faz o irmão parecer adversário. Dá-me tua mente, teu modo de olhar, teu jeito de responder. Forma em nós uma unidade real — não de aparência, mas de amor. Que a nossa vida como igreja torne teu senhorio visível. Amém.

Onde a unidade realmente nasce

Se o maior perigo para uma igreja não é, em primeiro lugar, o que vem de fora, mas aquilo que vai se formando por dentro — ambição, vaidade, pequenas defesas do ego — então a pergunta inevitável é: onde a unidade realmente nasce? Qual é a raiz invisível capaz de sustentar a comunhão quando o cotidiano desgasta, quando as diferenças aparecem e quando o “eu” tenta ocupar o centro? Paulo responde com uma sabedoria pastoral que desmonta nossos métodos apressados: antes de nos corrigir, ele nos faz lembrar. Antes de apontar o que precisa ser consertado, ele aponta para o que já foi dado. A unidade começa na memória da graça — no chão firme de tudo o que recebemos “por estarmos em Cristo”.


Como você tem cultivado a unidade em sua comunidade? Compartilhe nos comentários uma experiência em que a “mente de Cristo” transformou um momento de tensão em oportunidade de crescimento.

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