Abraão: o medo dirigindo a fé

Por Aristarco Coelho

Este texto integra a série Heróis da Fé, uma sequência de reflexões bíblicas sobre personagens do Gênesis, nas quais a fé é percebida não como heroísmo isolado, mas como resposta concreta à iniciativa graciosa de Deus.

Abraão partiu dali para a região do Neguebe e foi viver entre Cades e Sur. Depois, morou algum tempo em Gerar como estrangeiro. Ele dizia a respeito de Sara, a sua mulher:

― Ela é minha irmã.

Então, Abimeleque, rei de Gerar, mandou buscar Sara e tomou‑a para si como esposa. Gn 20.1,2

A história de Abraão não avança em linha reta. Logo depois do chamado e da promessa, ele enfrenta uma situação simples, mas decisiva: fome. A terra para onde Deus o enviou não oferece, naquele momento, as condições que ele esperava. E Abraão desce ao Egito.

É ali que o medo entra em cena.

Diante da possibilidade de perder a própria vida, Abraão escolhe mentir. Pede que Sara diga ser sua irmã, tentando controlar a situação. A promessa continua válida, mas o medo tenta assumir o volante.

Esse episódio é desconfortável justamente porque é humano. Abraão não abandona a fé, mas permite que o medo conduza suas decisões.

Quando a fé continua, mas o medo fala mais alto

Abraão crê em Deus. Isso não está em dúvida. Mas, naquele momento, ele confia mais em sua própria estratégia do que na proteção divina. A mentira não nasce da maldade, mas do medo de perder o controle.

Essa é uma tensão comum na vida de fé. Muitas vezes, continuamos crendo, orando e caminhando, mas tomamos decisões movidas pelo receio, pela autopreservação e pela ansiedade. Não deixamos de acreditar em Deus; apenas tentamos “ajudá-lo” a cumprir a promessa.

O problema é que o medo, quando assume o comando, sempre nos empurra para soluções que nos afastam da verdade.

Deus permanece fiel, mesmo quando Abraão vacila

O texto bíblico chama atenção para algo importante: mesmo nesse momento, Deus não abandona Abraão. Ele intervém, protege Sara e preserva a promessa. Não porque Abraão agiu corretamente, mas porque Deus permanece fiel ao que disse.

Isso não minimiza o erro, mas revela algo fundamental sobre a graça. A fidelidade de Deus não depende da estabilidade emocional de Abraão. A promessa não está apoiada na coragem humana, mas no compromisso divino.

A fé de Abraão sofre um abalo, mas a graça de Deus não.

Um tropeço que não define a caminhada

Esse episódio não encerra a história de Abraão. Ele não é descartado, nem descredenciado. Pelo contrário, segue caminhando com Deus, aprendendo, amadurecendo e sendo transformado ao longo do tempo.

A Bíblia não esconde as fragilidades dos seus personagens justamente para nos lembrar de que a fé verdadeira não é ausência de medo, mas aprendizado no meio dele. Abraão não é um modelo de perfeição, mas de crescimento.

A mentira no Egito revela uma fé ainda em formação, que precisará aprender a confiar não apenas na promessa, mas também na proteção daquele que prometeu.

Quando o medo aparece no caminho

A história de Abraão nos convida a uma pergunta honesta: em que áreas da nossa vida o medo tem tentado dirigir a fé? Onde temos recorrido a atalhos, estratégias ou omissões por receio de perder algo?

O mesmo Deus que chamou Abraão continua presente quando a fé vacila. Ele não abandona o caminho por causa de um tropeço, mas segue formando seus filhos ao longo da caminhada.

A fé cresce quando aprende a entregar o controle — inclusive nos momentos em que o medo insiste em falar mais alto.

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